Arte dos Caldeireiros de Santa Marta de Rossas é inscrita no Inventário Nacional do Património Cultural Imaterial, em regime de Salvaguarda Urgente
Durante gerações, foi nas oficinas de Santa Marta de Rossas que o fogo, o metal e a perícia das mãos deram forma a uma arte singular. Hoje, esse saber tradicional ganha reconhecimento nacional, com a inscrição da Arte dos Caldeireiros de Santa Marta de Rossas no Inventário Nacional do Património Cultural Imaterial (INPCI), formalizada através do Anúncio n.º 260/2026, publicado esta segunda-feira, 21 de setembro, em Diário da República.
Com cerca de 200 anos de história, esta tradição constitui uma expressão particularmente significativa da identidade cultural de Vieira do Minho e da comunidade de Rossas. Durante décadas, o som do martelo a bater no metal fez parte da paisagem local, numa atividade artesanal em que conhecimentos, técnicas e formas de fazer foram transmitidos de geração em geração.
A inscrição no INPCI é feita em regime de Salvaguarda Urgente, refletindo os riscos que atualmente ameaçam a continuidade deste saber-fazer. O reconhecimento nacional evidencia, assim, não só o valor histórico, social e cultural da tradição, mas também a necessidade de assegurar a sua transmissão às futuras gerações.
O processo de valorização e reconhecimento desta manifestação do património imaterial foi promovido pela Câmara Municipal de Vieira do Minho, que avançou com o levantamento e a inventariação da Arte dos Caldeireiros de Santa Marta de Rossas, perante o risco de desaparecimento associado a esta prática tradicional.
Para desenvolver este trabalho, o Município contratou o antropólogo Raul Pereira, no âmbito do projeto Touring Cultural – Identidade Cultural do Minho, promovido pelo consórcio Minho IN. O trabalho de investigação permitiu reunir informação histórica, testemunhos, documentação e outros elementos fundamentais para a caracterização da prática e para a fundamentação do processo submetido às entidades responsáveis pelo Património Cultural.
A arte dos caldeireiros de Rossas distingue-se pelo trabalho artesanal de metais como o cobre e o latão, recorrendo a técnicas e ferramentas tradicionais. Ao longo de gerações, os seus artífices produziram sobretudo objetos destinados às atividades domésticas e agrícolas, adaptando a atividade às transformações económicas e sociais sem perder a sua matriz artesanal.
Hoje, entre os objetos associados a esta tradição encontram-se sobretudo alambiques e caldeiras, mas também miniaturas e outras peças que continuam a transportar consigo a memória de uma atividade que teve uma expressão particularmente significativa na freguesia de Rossas.
Atualmente, Bernardino Ferreira Alves e José Moreira da Silva são os únicos que mantêm viva esta atividade a tempo inteiro, perpetuando conhecimentos e técnicas transmitidos ao longo de gerações. A par destes, existem outros detentores que permanecem ligados à prática de forma não profissional ou que se encontram emigrados.
A Salvaguarda Urgente assume, neste contexto, particular importância, apontando para a necessidade de proteger os contextos em que estes conhecimentos são transmitidos, valorizar os seus protagonistas e criar condições para a continuidade, preservação e divulgação da prática.
A inscrição agora concretizada constitui também o reconhecimento daqueles que, ao longo dos anos, mantiveram viva esta arte e representa o culminar de um processo de investigação, documentação e valorização que envolveu comunidades, grupos e detentores associados a esta manifestação cultural.
Para Vieira do Minho, este é um momento de particular significado. O reconhecimento nacional de uma arte que nasceu e se desenvolveu na comunidade de Santa Marta de Rossas confirma o valor de um património que não está apenas nos objetos produzidos, mas sobretudo nos conhecimentos transmitidos, nas técnicas preservadas e nas pessoas que continuam a dar vida a este saber-fazer.
Para o Município de Vieira do Minho, a inscrição no INPCI representa também o resultado de um trabalho de investigação e valorização da identidade cultural do concelho, reforçando o compromisso da Autarquia com a salvaguarda do património imaterial e com a preservação das tradições que integram a memória das suas comunidades.
Abre-se agora uma nova etapa: a de preservar, valorizar e transmitir este saber-fazer às gerações futuras, garantindo que a arte que durante décadas se ouviu nas oficinas de Rossas continue a fazer parte da memória viva de Vieira do Minho.
É, afinal, o reconhecimento de uma história feita de metal, fogo e mãos — uma história com cerca de dois séculos, nascida nas oficinas de Rossas e que agora passa a integrar oficialmente o património cultural imaterial de Portugal.